FMI e CFP preveem mais inflação do que o Governo, com custos para as famílias cujos rendimentos não acompanham os preços.
Redação ECOTEIRA
O Orçamento do Estado para 2027 assenta numa inflação média de 2,0% em Cabo Verde (Relatório OE 2027). Mas uma previsão mais elevada merece atenção. Os preços que sustentam essa previsão já estão a subir. As famílias sentiriam a diferença muito antes de qualquer revisão orçamental.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê 2,8% (World Economic Outlook, 13 de outubro de 2026). O Conselho das Finanças Públicas (CFP), órgão independente de avaliação da política orçamental, projeta 2,2% (CFP, relatório aprovado a 14 de outubro de 2026).
O choque dos preços
A pressão vem do exterior. O euro desvalorizou de 1,1699 dólares, a 21 de agosto, para 1,1253 dólares, a 16 de outubro de 2026 (BCE). Assim, comprar um dólar exigia cerca de mais 4,0% em escudos. Cálculo da ECOTEIRA com base nas taxas do Banco Central Europeu (BCE). Os combustíveis são comprados em dólares.
Nas bombas, o choque já chegou. A gasolina passou de 162,0 escudos cabo-verdianos (CVE) por litro, em julho de 2026, para 197,2 CVE em outubro. O gasóleo normal passou de 139,9 para 190,3 CVE por litro no mesmo período (ARME, outubro de 2026).
A Agência Reguladora Multissectorial da Economia (ARME) aponta a desvalorização do euro como um dos fatores do aumento. Refere também uma cotação média do Brent de 99,16 dólares por barril em setembro de 2026 (ARME).
Os operadores de transporte estão a repercutir o custo. Os preços dos táxis, dos autocarros e do transporte de mercadorias em camiões dentro de cada ilha já aumentaram. Os preços nas lojas acompanham essa evolução, à medida que o custo de transportar mercadorias se transmite aos produtos vendidos.
O que a inflação retira às famílias
Quando os preços crescem mais depressa do que os rendimentos, a inflação reduz o poder de compra sem alterar o recibo de vencimento.
É essa a situação que as famílias enfrentam com a subida dos combustíveis e dos transportes. Uma família com o mesmo rendimento do ano anterior compra agora um cabaz mais pequeno. As famílias de baixos rendimentos sentem primeiro a pressão. Os bens essenciais absorvem a maior parte do que ganham e deixam pouca margem para poupar.
A pressão acumula-se. As famílias reduzem despesas, adiam compras, contraem empréstimos ou recorrem a familiares no estrangeiro. Quem não dispõe desse apoio tem menos alternativas.
A seca poderá agravar a situação. O relatório do orçamento prevê seca em 2027 e alerta para os efeitos de uma seca severa na agricultura (Relatório OE 2027, parágrafos 7 e 29). As famílias rurais perderiam rendimento das colheitas precisamente quando os alimentos comprados para as substituir ficam mais caros.
Parte do alívio já existe. Em outubro de 2026, o Estado assumiu 70% do aumento do butano. Sem esse apoio, o preço teria subido 19,2%, em vez de 5,7% (ARME). Esse apoio abrange um produto, não o cabaz.
O salário mínimo deverá continuar a aumentar gradualmente a partir de 2028. Os planos remuneratórios aprovados para trabalhadores da Administração Pública serão pagos em 2027 (Ministério das Finanças). O alívio salarial é lento e estas medidas não dão a mesma proteção a todas as famílias.
No Conselho de Concertação Social, onde os planos foram apresentados, representantes sindicais identificaram trabalhadores das finanças, da saúde e da justiça entre as primeiras carreiras abrangidas.
Um salário mínimo mais elevado apoiaria o poder de compra dos trabalhadores formais com remunerações mais baixas. Aos trabalhadores informais, chegaria apenas de forma indireta. Se a inflação se aproximar dos 2,8%, a distância entre preços e salários aumenta entretanto.
A previsão de inflação do Governo continua a ser possível se os custos das importações diminuírem e as pressões sobre os preços abrandarem. Os ajustamentos salariais e o apoio ao butano protegeriam os agregados abrangidos. Mas o alcance e a dimensão dessas medidas determinam quanto poder de compra preservam. Os aumentos dos transportes já repercutidos sugerem que essas pressões ainda não abrandaram.
Ponto de Atenção
- Preços no consumidor de outubro de 2026: A divulgação pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) é esperada para meados de novembro, sem data confirmada. A subida dos preços para além dos combustíveis e dos transportes mostraria a persistência do choque. Um abrandamento fora dessas componentes enfraqueceria o argumento.
- Preços dos combustíveis de novembro: A atualização da ARME é esperada para o final de outubro, sem data confirmada. O comunicado identifica os fatores de cada ajustamento. Novas referências à desvalorização do euro mostrariam que o canal do dólar continua a atuar.
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