As estatísticas oficiais de Cabo Verde passaram para o centro da atenção pública depois de o Instituto Nacional de Estatística de Cabo Verde emitir um esclarecimento formal em defesa da integridade, metodologia e independência do seu trabalho estatístico.
Num comunicado público datado de 31 de maio de 2026, o INE respondeu a denúncias anónimas que circularam dentro da instituição e entre entidades públicas. A instituição rejeitou acusações relacionadas com dados sobre pobreza, estatísticas do mercado de trabalho e contas nacionais, afirmando que o seu trabalho segue a lei nacional, princípios estatísticos internacionais e normas técnicas utilizadas na produção de dados oficiais.
O INE afirmou que atua ao abrigo da Lei de Bases do Sistema Estatístico Nacional e que é orientado por princípios como independência técnica, objetividade, fiabilidade e transparência. Segundo a instituição, estes princípios não são privilégios institucionais, mas garantias legais destinadas a proteger a credibilidade das estatísticas nacionais.
Sobre os dados da pobreza, o INE afirmou que não houve ocultação nem manipulação de informação do IV IDRF 2023. A instituição declarou que, durante a fase de análise e tratamento dos dados, as equipas técnicas identificaram uma subdeclaração estatisticamente relevante nas despesas alimentares das famílias. O INE defendeu que publicar indicadores de pobreza absoluta com base em dados brutos comprometidos teria sido tecnicamente irresponsável.
Para responder ao problema, o INE afirmou que adotou a metodologia SWIFT de estimação da pobreza, que descreveu como uma ferramenta validada pelo Banco Mundial e já utilizada em Cabo Verde desde 2017. A instituição também afirmou que a base de dados do IV IDRF 2023 não foi descartada e continua a ser utilizada noutras operações estatísticas, incluindo a atualização dos ponderadores do Índice de Preços no Consumidor e a estimação do consumo das famílias nas contas nacionais.
Sobre as estatísticas do mercado de trabalho, o INE rejeitou a acusação de que estaria a apresentar Cabo Verde como um país em pleno emprego. A instituição afirmou que as suas estimativas de desemprego seguem os padrões da Organização Internacional do Trabalho, com base no facto de a pessoa não ter trabalhado durante a semana de referência, ter procurado ativamente emprego e estar disponível para trabalhar.
Sobre as contas nacionais, o INE rejeitou acusações de falsificação. A instituição afirmou que os cálculos do PIB utilizam a ferramenta ERETES e são baseados em trabalho de equipa, dados institucionais externos e indicadores internos, e não na decisão de uma única pessoa.
O INE também afirmou que comunicou formalmente o caso às autoridades competentes e que aguarda esclarecimento através dos canais legais.
Impact
A questão é importante porque as estatísticas oficiais fazem parte da infraestrutura económica de Cabo Verde.
Dados sobre pobreza, desemprego, inflação, consumo e PIB não são apenas resultados técnicos. Influenciam políticas públicas, planeamento orçamental, programas sociais, análises bancárias, confiança dos investidores, decisões empresariais e avaliações internacionais sobre o país.
Para empresas e investidores, estatísticas fiáveis ajudam a avaliar dimensão do mercado, poder de compra das famílias, condições do mercado de trabalho, tendências de crescimento e risco económico. Para os decisores públicos, dados credíveis são necessários para desenhar programas, medir a pobreza, acompanhar o emprego e avaliar resultados de desenvolvimento.
O comunicado do INE levanta, por isso, uma questão económica mais ampla: como se mantém a confiança pública nas instituições estatísticas quando indicadores sensíveis são questionados.
O principal risco não é apenas reputacional. Se a confiança nas estatísticas oficiais enfraquecer, o debate económico torna-se menos baseado em evidência. Isso pode dificultar o consenso entre instituições, empresas e cidadãos sobre as reais condições económicas do país.
O esclarecimento do INE coloca a credibilidade estatística no centro do debate sobre governação económica em Cabo Verde. Para a ECOTEIRA, a questão central não são as denúncias anónimas em si, mas a importância económica de dados confiáveis. Uma pequena economia insular depende de estatísticas credíveis para compreender pobreza, emprego, preços, crescimento e condições de investimento.
Watch Point
Acompanhar se o INE apresenta novos esclarecimentos técnicos sobre o IV IDRF 2023, a estimação da pobreza, a metodologia do mercado de trabalho e os processos das contas nacionais. Também será importante observar se o caso permanece como uma questão de integridade institucional ou se evolui para um debate mais amplo sobre a confiança nos dados económicos de Cabo Verde.
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