A economia das remessas em Cabo Verde é muitas vezes contada como uma história de sucesso.
A diáspora envia dinheiro para casa. As famílias pagam alimentação, educação, habitação, saúde e despesas diárias. Rendimento externo entra na economia. Os bancos recebem depósitos. O consumo mantém-se apoiado.
Essa história é verdadeira. Mas talvez não esteja completa.
Em 2000, as remessas como percentagem do PIB representavam 13,5%, a maior fonte individual de divisas da economia, antes de os resorts turísticos existirem em grande escala. Hoje, depois de décadas de crescimento económico e expansão do turismo, continuam a representar mais de 12%. A proporção quase não se moveu. A dependência não diminuiu. Manteve-se.
Em termos económicos simples, a produção depende da produtividade, do capital e do trabalho. As remessas apoiam o lado do rendimento e do capital. Mas não substituem automaticamente o trabalho e a capacidade humana que saem quando as pessoas emigram.
Muitas das pessoas que enviam dinheiro para casa são também trabalhadores, profissionais, empreendedores, contribuintes e futuros criadores de empresas que agora produzem fora de Cabo Verde.
O dinheiro entra. A capacidade sai.
Para muitas famílias, o dinheiro enviado do exterior não é rendimento extra. É parte do orçamento familiar: alimentação, propinas, despesas médicas, renda, reparações na casa.
A nível nacional, as remessas apoiam a procura interna, trazem rendimento externo para a economia e ajudam as famílias a absorver choques quando o rendimento doméstico é limitado.
Esse apoio é real. Mas estabilidade não é o mesmo que produção.
Uma transferência pode ajudar uma família a comprar comida. Não pode cultivar a terra. Não pode operar um barco de pesca, conduzir o transporte interilhas ou expandir um setor produtivo.
É aí que começa o paradoxo.
O custo escondido está no papel produtivo que muitos emigrantes poderiam ter desempenhado no país.
Estima-se amplamente que a diáspora cabo-verdiana seja maior do que a população residente. O Censo de 2021 do INEregistou 491.233 residentes. A diáspora não é apenas uma característica da economia. É uma condição dela.
Em 2021, as remessas atingiram 15,3% do PIB, um máximo histórico, enquanto a diáspora ajudava a compensar a inflação interna e a pressão pós-pandemia. Nesse mesmo ano, Cabo Verde registou a sua população residente recenseada mais baixa desde 2000.
Mais dinheiro estava a entrar. A população residente estava no seu nível censitário mais fraco em duas décadas.
Nem todos os emigrantes têm o mesmo perfil económico. Alguns saem à procura de rendimento básico. Outros saem com competências, ambição, formação profissional e capacidade para criar empresas, gerir instituições, pagar impostos e desenvolver setores.
Um trabalhador qualificado que sai pode enviar remessas, mas já não trabalha em Cabo Verde. Um jovem profissional pode apoiar financeiramente familiares, mas as suas competências são usadas noutro lugar. Um potencial empreendedor pode um dia investir a partir do exterior, mas a empresa que poderia ter criado localmente talvez nunca apareça.
Numa economia grande, estas perdas podem ser absorvidas com maior facilidade. Numa pequena economia insular, o efeito é mais forte.
Cabo Verde não tem uma grande força de trabalho nem um grande mercado interno. Também não tem profundidade profissional ilimitada entre setores. Cada pessoa que sai pode representar mais do que um trabalhador em falta. Pode também representar um gestor, professor, enfermeiro, técnico, engenheiro, contabilista, fundador, investidor, funcionário público ou futuro empregador em falta.
O valor das remessas não mostra nada disso. Mostra o que entra. Não mostra o que saiu.
A questão torna-se mais clara nos setores onde a mão de obra é difícil de substituir. Santo Antão perdeu quase 16% da sua população entre os censos de 2010 e 2021. O Fogo também registou uma queda significativa. São ilhas agrícolas e piscatórias.
Um país pode receber remessas e ainda assim faltar trabalhadores nos campos. Pode receber apoio familiar e ainda assim ter dificuldade em garantir mão de obra para a pesca, os transportes, a construção ou os serviços locais. Pode receber dinheiro do exterior e ainda assim ter empresas que não conseguem expandir porque os trabalhadores certos não estão disponíveis.
Esse é o custo mais profundo. E ele não aparece nos dados de entrada de dinheiro.
A emigração também pesa sobre as finanças públicas.
O consumo apoiado por remessas gera alguma receita fiscal. Mas a base fiscal mais profunda vem da atividade produtiva doméstica: salários, lucros empresariais, empresas formais, serviços profissionais, investimento e emprego.
Se muitos potenciais fundadores e profissionais constroem a sua vida económica no exterior, Cabo Verde recebe apoio ao consumo sem construir produção tributável suficiente dentro do país.
A mesma lacuna aparece nas competências.
Infraestrutura, transição energética, reforma financeira e modernização institucional exigem frequentemente conhecimento especializado. Quando a capacidade local é limitada, consultores externos preenchem a lacuna. A questão é saber se essa lacuna está a diminuir ou a aumentar.
A educação acrescenta outra camada.
Se os jovens se qualificam e depois saem antes de aplicar essas competências no país, Cabo Verde recebe o investimento em capital humano, mas o retorno é capturado por outra economia.
Grande parte do que as remessas financiam é visível e tangível.
Famílias são apoiadas. Casas são construídas. Propriedades são compradas. Essas coisas não são pequenas. Para as famílias, são tudo.
Mas uma casa não é uma empresa. Um depósito não é uma fábrica. Consumo não é produção.
O setor bancário recebe liquidez ligada às remessas. A questão é simples: quanto desse dinheiro ajuda a criar empresas, financiar trabalho produtivo e fortalecer setores reais da economia?
Esse é também um desafio mais amplo para Cabo Verde, analisado no ECOTEIRA Think Piece sobre se a força financeira do país pode compensar as suas vulnerabilidades estruturais.
Se a maior parte do dinheiro fica próxima do apoio familiar e do imobiliário, então o paradoxo mantém-se.
O dinheiro chega. A economia fica estável. E a capacidade produtiva necessária para tornar essa estabilidade autossustentável continua a sair no próximo voo.
O compromisso da diáspora cabo-verdiana não está em causa. As transferências são reais. O apoio é real. A ligação é real.
Mas a questão nunca foi apenas sobre o dinheiro.
Para uma pequena economia insular, a pergunta não é apenas quanto dinheiro chega. É se esse dinheiro consegue compensar as pessoas, as competências e o espírito empresarial que saíram.
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