O crescimento económico de Cabo Verde deverá desacelerar em 2026, após uma forte expansão registada em 2025, segundo o Relatório de Política Monetária de abril de 2026 divulgado pelo Banco de Cabo Verde (BCV).
Embora a economia continue projetada para crescer acima da média internacional, o ritmo de expansão deverá perder dinamismo após a forte recuperação pós-pandemia observada nos últimos anos. Ainda assim, o BCV prevê uma recuperação moderada em 2027, quando o crescimento poderá atingir 4,9%.
O banco central atribui a moderação esperada ao enfraquecimento da procura externa, desaceleração da atividade turística, consumo privado mais contido e persistente incerteza internacional ligada ao abrandamento da economia global, tensões comerciais e agravamento do conflito no Médio Oriente.
Segundo o relatório, a economia cabo-verdiana cresceu 6,3% em 2025, abaixo dos 7% registados em 2024. Para 2026, o crescimento deverá moderar para 5%, refletindo uma procura externa líquida mais fraca, crescimento mais lento das exportações de serviços e aumento das importações de bens.
Impacto Social
Uma desaceleração do crescimento poderá afetar gradualmente:
- poder de compra das famílias
- emprego ligado ao turismo
- procura no comércio e retalho
- confiança dos consumidores
- despesas do setor privado
O enfraquecimento das condições de consumo é particularmente relevante porque o consumo privado continua a ser um dos principais motores da atividade económica interna. Quando os preços aumentam e o rendimento disponível cresce de forma mais lenta, as famílias tendem a tornar-se mais cautelosas, sobretudo em áreas onde alimentação, transportes e energia pesam no orçamento mensal.
Uma atividade mais fraca nos setores ligados ao turismo poderá também influenciar a geração de rendimento em hotéis, restaurantes, serviços de transporte e pequenos negócios dependentes da economia turística.
Ao mesmo tempo, o relatório destaca importantes fatores de estabilidade. As reservas internacionais líquidas atingiram um máximo histórico de 1,06 mil milhões de euros, garantindo entre 8,4 e 8,8 meses de cobertura das importações, apoiadas por fortes remessas dos emigrantes e por um aumento de 39,7% no Investimento Direto Estrangeiro.
Esses fatores poderão ajudar a reduzir riscos imediatos de perturbação económica mais severa, reforçando a liquidez externa, a confiança financeira e a capacidade das autoridades de gerir inflação importada e estabilidade cambial.
ECOTEIRA Insight
A projeção do BCV mostra uma economia que está a transitar da fase de recuperação pós-pandemia para uma fase mais exigente de gestão do crescimento.
Cabo Verde continua a crescer, mas os motores desse crescimento estão gradualmente mais expostos. O turismo desacelera, a procura interna perde força, as importações permanecem elevadas e a instabilidade global continua a alimentar pressões inflacionistas.
As exportações de serviços turísticos — um dos principais motores da economia cabo-verdiana — cresceram 9,6% em 2025, abaixo dos 19,1% registados em 2024, refletindo uma procura mais fraca de importantes mercados europeus, incluindo Bélgica e Países Baixos.
Essa forte desaceleração é relevante porque o turismo não representa apenas um setor económico em Cabo Verde; funciona também como um dos principais canais de transmissão de divisas, emprego, atividade de transportes, receitas da hotelaria e rendimento para pequenos negócios.
O relatório revela, assim, duas realidades opostas:
- o dinamismo económico está a moderar
- a resiliência macrofinanceira está a fortalecer-se
Esta divergência sugere que a próxima fase económica de Cabo Verde poderá depender menos do impulso de recuperação e mais da capacidade do país de sustentar crescimento em condições globais mais normalizadas.
A desaceleração do crescimento das exportações turísticas reforça igualmente a importância de diversificar a base produtiva nacional. Enquanto a procura externa de serviços permanecer concentrada, alterações nos fluxos turísticos provenientes de mercados estratégicos poderão influenciar rapidamente o crescimento nacional.
A decisão do BCV de manter as taxas diretoras inalteradas reflete precisamente este equilíbrio. A prioridade parece ser preservar estabilidade monetária e credibilidade cambial sem criar pressão desnecessária sobre o crescimento económico.
Watch Points
- Evolução da procura turística nos principais mercados europeus
- Transmissão dos custos de energia, alimentação e frete para a inflação
- Poder de compra das famílias perante preços mais elevados
- Sustentabilidade das reservas, remessas e fluxos de IDE
- Equilíbrio entre desaceleração económica e estabilidade monetária
Linha Final
Cabo Verde entra em 2026 com crescimento mais moderado, mas com amortecedores financeiros mais fortes, tornando o próximo desafio económico menos centrado na recuperação e mais focado em estabilidade, competitividade e capacidade de resistir a pressões externas.
ECOTEIRA xI — Impacto Esperado
| Categoria | Impacto Esperado |
|---|---|
| Moderação do Crescimento | Alto |
| Sensibilidade ao Turismo | Alto |
| Exposição à Inflação Importada | Alto |
| Amortecedores de Estabilidade Financeira | Alto |
| Pressão de Vulnerabilidade Externa | Alto |





